sábado, 22 de setembro de 2012

Ngong Hills

Há aproximadamente 10 km do centro de Nairobi, há um bairro chamado Karen, onde há belas casas e onde mora a maior parte da pequena porcentagem de quenianos brancos (descendentes de britânicos) e afortunados.
O bairro recebeu esse nome em homenagem a Isak Dinesen, conhecida na África como Karen Blixen, uma dinamarquesa que morou no Quênia de 1914 a 1931, aos pés da montanha Ngong Hills, onde ela tinha uma grande fazenda e onde administrou uma grande plantação de café. Existe até mesmo um filme muito conhecido sobre sua vida, chamado “Out of Africa”. Foi por causa deste filme, que fomos visitar Ngong Hills.
Eu, Fiona (voluntária de Londres) e minha irmã no final do primeiro pico de Ngong Hills
Essa montanha fica há aproximadamente duas horas do centro de Nairobi. Porém, de Rongai, bairro onde estamos morando, levou 01 hora em duas matatus – uma até o bairro de Kiserian e outra até a cidade de Ngong. De Ngong é necessário pegar um táxi para chegar até a entrada principal.
Paga-se uma taxa de KSH 600.00 shillings (aprox US$ 8 dólares) pela entrada e os guardas são extremamente grosseiros, quase obrigando e até mesmo intimidando os turistas a pagarem por um segurança armado. O valor que pedem é ultrajante – KSH 4 mil shillings, quase US$ 50 dólares. Não parece muito em dólar, mas é um abuso na moeda local.
Guarda tentando pedir um suborno ao nosso guia
A montanha é composta de sete picos e leva aproximadamente 05 horas para atingir o final. Porém, no meio do pico há uma floresta e dizem que lá podem ocorrer assaltos. Há muitas vilas ao redor da montanha e alguns moradores da região podem tentar atacar os turistas. Por isso recomendam um guia do parque.
Tipo de camaleão existente no meio da floresta
De qualquer forma, pagamos muito menos por um guia da tribo Maasai (KSH 1,500.00 shillings, equivalente a aprox US$ 18 dólares), uma vez que ele conhece a montanha e está acostumado a levar seus animais para pastar no local. Caso você venha ao Quênia e tenha interesse em conhecer Ngong Hills, o nome do nosso guia é Peter e seu celular é 0711-703-484.
Não vale a pena pagar os guardas, eles são extremamente corruptos e todos dizem que caso um turista se recuse a pagá-los como segurança, eles próprios avisam os moradores da vila para nos atacarem. É realmente frustrante e até mesmo desapontante saber de algo assim. Portanto, não colabore com a corrupção africana, mas vá em grandes grupos e nunca vá somente em mulheres!
Fizemos 04 picos em 02 horas, porém, paramos no meio caminho para descansar. Acabamos encontrando um grupo de 20 estudantes, de uma das maiores e melhores universidades de Nairobi. Foram extremamente gentis e amigáveis. Nos deram inclusivem sanduíches e refrigerante. Depois dessa parada, não contamos o tempo, então não sei dizer por quantas horas caminhamos no total.
Grupo de estudantes quenianos
A vista de cada pico é muito bonita e de algumas partes também é possível ver o Great Rift Valley, maior vale do mundo, começando em Israel e terminando em Moçambique.
Vista do Great Rift Valley, de Ngong Hills
Logo no começo da montanha, há uma empresa de captação e transformação de vento em energia elétrica e de onde é possível ver e escutar as enormes turbinas eólicas funcionando.
Turbinas eólicas no topo de Ngong Hills
No meio do caminho há alguns Maasais vendendo as bijuterias que eles próprios fazem, normalmente com miçangas. E outros pastoreando seus animais. Portanto, no meio da trilha cruzamos com diversas cabras e vacas. Nairobi é uma das cidades mais poluídas que já visitei. Foi bom ver um pouco de verde, céu azul e respirar ar puro!
Pôr do sol, em meio a muitas cabras, ao final da caminhada



sábado, 15 de setembro de 2012

Celebração do Dote (Dowry)

Além da Índia, no Quênia também há a celebração do dote (o que eles chamam de Dowry). Porém, na África, o homem é quem faz a oferenda à família da mulher. Trata-se de um ritual muito tradicional e ao contrário do que muitos pensam, o noivo não está “pagando” pela noiva, mas sim oferecendo um presente aos seus pais.
O dote pode ser pago através de vacas, cabras e até mesmo parte em dinheiro. Dinheiro este oferecido pelos convidados, assim que chegam ao local da comemoração.
Se pararmos para pensar, o sistema no Brasil não é muito diferente, pois os noivos podem tanto dividir os custos, como a família que tiver mais dinheiro, pode pagar por todo o casamento.  Os convidados não só dão presentes, como também oferecem dinheiro quando passam a famosa “gravata”.
Eu e minha irmã fomos convidadas por nossa “mãe” queniana, para celebrar o dote que seu irmão ofereceria à família de sua esposa, após 16 anos de casamento. Aqui no Quênia, o dote é feito pelo resto de suas vidas. Não há data certa, sendo que o noivo decide quando e como fazer a oferenda do dote.
Minha irmã, a noiva Hanna e eu
Para variar, chegamos ao local em uma matatu (como os africanos chamam as vans) caindo aos pedaços e lotada, não somente com pessoas, mas com espigas de milho e refrigerantes, que seriam oferecidos como parte do dote.
O que mais me intriga na cultura africana, é que as mulheres é quem carregam tudo. Elas são tão fortes quanto um touro e estão acostumadas a carregar peso desde a infância. A caminho da casa da família da noiva, elas formam uma fila e vão cantando belas canções de oferendas.

Durante a celebração, a comida é extremamente farta. Eles servem especialmente feijão preto, mukimo (purê de batata com ervilha e milho), Kachumbari (muito semelhante com nosso vinagrete), batata cozida, repolho e cenoura refogados, além de chapatti, um tipo de pão sírio.

A família da noiva serve os convidados e eu fiquei assustada com a quantidade de comida. Não consegui comer nem a metade!


Mas toda essa comida é apenas a entrada, pois o prato principal é a carna de cabra, a qual a família mata e prepara um dia antes da comemoração. Todos comem com as mãos ou com colheres, nunca usam garfo e faca. Todos se perguntavam porque eu e minha irmã não estávamos comendo a comida mais cara e mais deliciosa da celebração. Não adiantava explicar que somos vegetarianas! J
Após a “comilança”, alguns familiares e amigos foram convidados a fazer um discurso, inclusive eu e minha irmã, as únicas branquelas da festa. Também contaram com a presença da pequena Zora (nome este que significa “novo começo” em Kiswahili, língua dos quenianos), de um aninho e meio. Uma das crianças mais doces e inteligentes que já conheci e melhor ainda, não tinha nada de mimada.
Zora
Apesar de ter sido uma celebração simples, foi muito farta e muito alegre!

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Tribo Maasai

Sempre que viajo para outros países, gosto de visitar vinícolas, tribos e montanhas. Primeiro porque adoro tomar vinho, segundo porque adoro aprender sobre diferentes culturas e em terceiro, porque adoro atingir o topo e vencer desafios!
No Quênia há aproximadamente 42 tribos, sendo que a mais famosa se chama Maasai. Não pela quantidade de pessoas, mas pela forma diferenciada de viverem e se vestirem.
Uma Maasai em frente à sua manyatta (cabana)
Através da NVS, organização pela qual estou trabalhando como voluntária, tive a oportunidade de visitar uma Maasai Land (Terra dos Maasai), em Saikeri Village, há aproximadamente duas horas do centro de Nairobi.
A estrada para chegar ao local é de terra e super esburacada. O acesso só é possível através de um automóvel 4x4. Absolutamente tudo dentro da van ficou com uma camada espessa de  poeira – mochila, roupas, sacos de dormir, até mesmo meu cabelo e minha pele. Saikeri é um lugar quente e extremamente seco.
Começamos visitando uma escola onde moram aproximadamente 25 garotas resgatadas de suas casas por correrem risco de mutilação e/ou por já terem sido violentadas.
Atualmente, mutilação é ilegal na África, mas ainda assim algumas famílias mais conservadoras e me atrevo  a dizer até mesmo mais primitivas, tentam mutilar suas filhas quando elas atingem a faixa dos 12 anos de idade. Algumas delas fogem para esta escola, pois sabem que lá estarão protegidas e as professoras chamarão a polícia. Os pais não as buscam porque sabem que serão presos.
Para quem não sabe, a mutilação feminina consiste em cortar o clitóris com uma gilete e costurar os lábios vaginais, deixando apenas um pequeno orifício para que elas possam urinar. Na crença deles, as mulheres não devem sentir prazer e isso também evita que façam sexo antes do casamento. Ao se casarem, os maridos simplesmente as “rasgam” com uma faca.
Quando não são mutiladas, são violentadas sexualmente. Há muitas meninas nesta vila, na faixa dos 12 a 15 anos, que já têm filhos. Porém, até 20 anos atrás, fazer sexo forçadamente não era considerado estupro. Para os homens das tribos era algo normal praticar sexo com qualquer mulher que vissem pela frente. Elas sabiam disso e não relutavam.
Além da mutilação feminina, ainda hoje as tribos também realizam a circunsisão nos meninos que atingem seus 15 anos de idade. Eles simplesmente “passam a faca”! O que também se tornou ilegal. Há anos atrás, quando um grupo de meninos era circuncidado, eles nunca mais se desuniam e podiam inclusive praticar sexo com as esposas um dos outros. Ou seja, era algo totalmente cultural e tribal.
Além desses rituais, até hoje, em algumas regiões da África e até mesmo entre os Maasais, um dote é oferecido para a família da mulher com a qual desejam se casar. Aqui chamam de dowry  e normalmente oferecem vacas, cabras e parte em dinheiro.
Já na Índia é o contrário. Lá a família da mulher é quem oferece o dote para a família do homem. Eles consideram essa oferenda, como uma forma de presentear a família em troca de sua futura esposa e continuarão fazendo esta oferenda para o resto de suas vidas. Eles comemoram de anos em anos, como se fossem as “bodas” no Brasil, mas aqui, não há data certa.
No entanto, as tribos costumavam “oferecer” suas filhas quando elas completavam 12 anos de idade, pois já eram consideradas mulheres. Dessa forma, nenhum homem poderia tocá-la até que ela fosse morar com seu futuro marido, caso contrário, ele seria chicoteado e expulso da tribo. Atualmente, casar uma criança com 12 anos de idade também se tornou ilegal na África.
Conversando com jovens Maasais, me disseram que atualmente eles pensam em terminar os estudos, arranjar um emprego e daí sim se casar com alguém que realmente estejam interessados. E sobretudo, apenas com uma mulher, pois a geração de seus pais e avós geralmente tinham mais de uma esposa. Cheguei a visitar uma família que o marido tinha oito esposas morando em um mesmo terreno, que eles chamam de Bomas.
Bomas (terreno) cercado por galhos
Os Maasais cercam suas bomas com galhos e dentro, constroem cabanas chamadas Manyattas. As Manyattas são sempre construídas pelas mulheres, com galhos e esterco. Tive a oportunidade de visitar essas cabanas, que na verdade são verdadeiras saunas, além de escuras e cheias de moscas. Uma vez dentro, eu não enxergava nada! A não ser quando os flashes das câmeras digitais eram disparados.
Manyattas (cabanas construídas com galhos e esterco)
Cozinha de uma manyatta
Dentro da manyatta com uma Maasai
Além de construir as manyattas, as mulheres também lavam, cozinham, cuidam das dezenas de crianças (que também ajudam com os afazeres da casa), fazem suas tradicionais bijuterias, como também saem em busca de água em algum rio preenchido pelas chuvas, mas ainda assim, escassos. Andam por horas, sob sol ardente, carregando barris de água pesadíssimos nas costas.
Maasai sentada em meio à sua família, confeccionando suas tradicionais bijuterias
Crianças carregando lenha
Uma Maasai carregando telhado para construir sua manyatta
Enquanto isso, os homens levam seus animais para pastar e passam o dia inteiro fora, caminhando milhares de kilômetros, em busca de água e pasto. 
Ao entardecer, fomos visitar a única escola noturna da vila, onde há aproximadamente 01 ano, os Maasais têm aprendido a ler e escrever. Esta escola foi criada por um voluntário australiano, muito famoso na região por suas benfeitorias. Ele continua enviando dinheiro mensalmente para mantê-la ativa. Esta escola é frequentada apenas pelos homens, uma vez que passam o dia inteiro pastoreando os animais.
Ewangan School - Escola noturna apenas para homens
Não há eletricidade na vila, mas felizmente, há energia solar nas escolas. Após caminharem o dia inteiro, os Maasais ainda caminham mais aproximadamente 40 km (ida e volta), no meio da escuridão, para poderem estudar.
Uma das salas da escola noturna
Para entender e sentir na pele o quanto os Maasais andam diariamente, nos levaram para uma caminhada por suas terras. O final da estrada, dava para um abismo, de onde pudemos ver o Great Rift Valley, maior vale do mundo, bem como um belo pôr do sol.
Pôr do sol visto do Great Rift Valley, o maior vale do mundo
Passamos a noite na primera escola que visitamos, porém, os professores estavam de greve, portanto as meninas tiveram que voltar para suas casas. Não dormi a noite inteira! As beliches era de ferro e portanto, barulhentas. Sem contar os colchões, que na verdade era colchonetes!


Antes de dormir, os Maasais fizeram uma fogueira para nosso grupo de oito mulheres e pela primeira vez eles comeram marshmallows e continuaram nos contando mais sobre sua cultura.

Não há água na escola, muito menos na vila. Ou seja, não há como tomar banho. Mesmo porque, também não há banheiros, apenas as famosas latrinas. Portanto, não esqueça de levar lenços umedecidos!
Quando já não aguentávamos mais segurar, eu, minha irmã e mais algumas voluntárias saímos à procura de uma latrina. Foi uma das piores experiências da minha vida – fazer “minhas necessidades” em um buraco, agachada, em meio a diversos insetos e ainda por cima, na maior escuridão!
Sem contar que nesta vila há 8 mil habitantes, bem como hienas, cheetas e leopardos. Só fiquei tranquila em caminhar no meio do mato na maior escuridão, porque os Maasais nos garantiram que nunca ninguém foi atacado por esses animais.
As cheetas e leopardos costumam atacar as vacas e cabras, sendo que as hienas só comem os restos. Dessa forma, os Maasais são obrigados a matar esses lindos animais, caso contrário, perderão seus rebanhos e sua fonte de alimento.
Para reconhecer seus rebanhos, os Maasais marcam seus animais fazendo cortes com facas, deixando cicatrizes enormes. E por falar em cortar, eles também bebem o sangue desses animais, misturado com leite, pois acreditam que isso os tornam mais fortes.

Antigamente também havia outra utilidade para este sangue. Quando uma criança nascia com alguma deficiência, as famílias não apenas as rejeitavam, como as amarravam em uma árvore e jogavam sangue em seu corpo, de forma a atrair animais para comê-las. Realizavam este mesmo ritual com os idosos, uma vez que já não podiam cuidar de si próprios.
Maasai idosa, com aproximadamente 100 anos de idade (ou mais...)
No dia seguinte, visitamos a pré-escola da vila e um Maasai Market (feira aberta), onde vendem seus famosos tecidos coloridos e suas bijuterias. Os Maasais acreditam que cores fortes, em especial o vermelho, os protegem  contra ataques de animais selvagens.
Saikeri Primary School
Maasai Market
Por fim, visitamos a única clínica da região. Porém, não há médicos, apenas uma enfermeira Maasai que teve a sorte de poder estudar e ainda assim retornou para sua vila, para ajudar seu povo.
Maggie é mais uma das mulheres de fibra que conheci aqui no Quênia. É a única Maasai que teve coragem de quebrar as tradições tribais e se divorciar de marido devido à violência doméstica e ainda por cima, criar 03 filhos sozinha. Ela está há milhares de anos luz mais evoluída que sua tribo e é ela quem tem lutado contra mutilação e violência sexual.
Foi uma experiência incrível visitar essa tribo, conhecer seus bomas, suas manyattas, consersar pessoalmente com eles e saber o que pensam e como vivem. Mas foi mais incrível ainda saber que a NVS, ONG para a qual estamos trabalhando aqui no Quênia, também ajuda esta vila e parte do dinheiro dos voluntários é investido em alimento e educação para os Maasais.
Eu e minha irmã com uma família de Maasais


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Banho de gato

Estou literalmente sentindo na pele as dificuldades pelas quais os quenianos passam. A pior delas é a falta de água. Há mais de um mês tenho tomado banho de gato! Na verdade, esquento um pouco de água, coloco em uma bacia e tomo banho de canequinha. Tenho chegado totalmente sem energia do orfanato e meu único desejo era poder tomar um banho relaxante e descansar.
Todo final de semana, a família com o qual e minha irmã estamos morando, solicita a entrega de alguns galões para abastecer a caixa d’água da casa. Os galões são entregues em uma carroça que chega a pesar quase 1000 kg e é puxada por um ou dois burros. Morro de dó desses bichanos, pois seus donos chegam a ferí-los aos chicoteá-los para que se movam rapidamente.
Entrega de água
Um burro custa aproximadamente U$ 100 dólares (KSH 8,500.00 shillings), sendo que um cavalo custaria por volta de U$ 1,000.00 dólares (KSH 85,000.00 shillings), uma verdadeira fortuna para esses pobres trabalhadores. Cavalos aqui no Quênia, são apenas para ricos jogarem pólo.
Se recebessem água encanada, pagariam KSH 20,00 shillings para cada 200 litros. Porém, ao solicitar a entrega de galões, cada 25 litros, chega a custar KSH 20,00 shillings.
Além disso, os quenianos deixam suas caixas d’água abertas para receber água da chuva. O pior é que eles acham que esta água é limpa! No entanto, a cor da água aqui é simplesmente marrom, pois o Quênia é um país seco e  por isso, muito empoeirado. É impossível ficar limpa!  Minhas unhas vivem sujas, minhas roupas empoeiradas e meu cabelo duro!
Normalmente temos 04 litros de água por pessoa. Com essa água, lavamos não somente o corpo, como o cabelo e nossas roupas. E ainda reaproveitamos a água suja para aguar as plantas ou para jogar no vaso sanitário.
Antes e depois de tomar banho
Por falar em vaso sanitário, dar descarga cada vez que fazemos xixi é um grande desperdício. Por isso, temos que aguentar ao máximo, até que o cheiro esteja insuportável. Já para fazer número 2, não há outra alternativa!
De qualquer forma, fico feliz por ter um vaso sanitário, pois a maioria das casas têm latrina, que é um buraco no chão. Muitas vezes eu deixo de tomar água, para não ter que usar um banheiro público e nem mesmo o banheiro do orfanato. O cheiro é simplesmente insuportável. Se eu me encontro em um estado que não consigo mais segurar, eu prendo a respiração e rezo para as moscas não picarem minha bunda!
Banheiro público / Latrina
Para piorar, tenho visto muitos africanos com dentes podres e literalmente marrons. Ao questionar nosso pastor, ele nos disse que em algumas regiões do Quênia, os componentes químicos para tratar a água são tão fortes, que acabam danificando os dentes dos quenianos. É com esta água que eu estou escovando os dentes! :-)

sábado, 8 de setembro de 2012

The Giraffe Center

O Giraffe Center foi criado em 1979 para resgatar girafas em extinção, ameaçadas pelo próprio ser humano, que infelizmente as matam para obter de preferência seus rabos, com os quais produzem ornamentos, particularmente braceletes.
No local, há um tipo de bangalô bem alto, de onde é possível alimentá-las todos os dias, das 09 às 17h00. O valor da entrada custa KSH 1,000.00 shillings ou U$ 13 dólares e vale super a pena, pois elas vêem comer na palma da sua mão. As girafas têm línguas super longas, conseguindo até mesmo coçar suas orelhas com elas.


A ração é fornecida pelo próprio parque, que conta com aproximadamente 12 girafas no momento. Elas não mordem, mas não estão acostumadas ao toque. Quando alguém tenta tocá-las, elas se assustam e acabam se afastando.

Se elas se afastarem, é necessário ficar esperando um pouco no local até retornarem. Mas os funcionários são bem simpáticos e para não deixar os turistas frustrados, eles tentam atraí-las chegando bem próximos a elas, balançando um pote com ração. Porém, seu alimento preferido são as folhas das copas de árvores.

Há 03 tipos de girafas: Reticulated - têm manchas até as patas e 03 chifres tanto nos machos quanto nas fêmeas; Maasai – têm manchas menores e mais escuras e também têm 03 chifres cada, porém 02 na frente e 01 atrás; Rothschild – esta é a girafa que se encontra em extinção. Têm manchas somente até os joelhos, sendo que os machos têm 05 chifres e as fêmeas 03.

Apesar de não serem animais territoriais, para estabelecer um domínio e hierarquia, as girafas podem travar verdadeiros combates, batendo violentamente seus pescoços umas contra as outras e também usando seus chifres. Porém, elas não se matam. A perdedora apenas deixa o local.
Em um espaço como este, as girafas podem viver de 20 a 25 anos, porém, em seu habitat natural, vivem até no máximo 15 anos. Chegam a atingir até 6 metros de altura, sendo que suas pernas podem chegar a 2 metros e meio do chão. Por incrível que pareça, um filhote pode nascer com quase 2 metros de altura.

Diferente de outros quadrúpedes, na hora de caminhar são muito elegantes. Erguem ambas as pernas de um mesmo lado do corpo e as leva para frente, deslocando-as ao mesmo tempo, com passos largos de até 4 metros e meio e podem atingir até 60 km por hora.
Seu principal predador, após o ser humano, são os leões. Eles só conseguem matá-las se estiverem deitadas, uma vez que demoram para se levantar. Porém, se estão de pé, dificilmente os leões as ataca, pois uma girafa pode matá-los com apenas um chute. As girafas dormem em pé, por aproximadamente 02 horas e apenas quando se sentem completamente seguras. 

As girafas são animais solitários e só vivem em grupos para se protegerem de predadores. Outro animais, como as zebras, costumam pastar perto de bando de girafas, pois elas têm excelente visão e conseguem ver os predadores de longe.
No Giraffe Center não se vê apenas girafas. Convivendo pacificamente com elas, há também Warthogs, que são porcos selvagens. Eles se tornaram famosos no desenho animado Rei Leão, onde era chamado de Pumba. Têm a memória muito fraca. Se são atacados por algum predador e conseguem fugir, eles se esquecem rapidamente do ocorrido, se tornando presas fáceis novamente em questões de minutos.
Warthog, porco selvagem, conhecido também como Pumba



quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Um aniversário diferente!

Sempre comemorei meus aniversários em algum restaurante bacana de São Paulo. Porém, este ano, comemorei em um lugar totalmente inusitado, também com pessoas muito especiais e que puderam experimentar um bolo de chocolate pela primeira vez em suas vidas. Mas que sobretudo comemoraram um aniversário pela primeira vez, quando tristemente não sabem nem o próprio dia em que nasceram!
Charles, fundador do orfanato e eu
Desta vez, comemorei meu aniversário no orfanato Light Orphanage Centre, com aproximadamente 50 crianças e adolescentes. Ganhei o bolo de presente da minha irmã e não poderia ter sido presente melhor, pois pude dividí-lo e adoçar um pouquinho a vida dessas crianças tão sofridas, mas que ainda assim conseguem sorrir, ter fé e sonhar!
Minha irmã no meio da criançada, comemorando meu aniversário

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Light Orphanage Centre

Este será um post um tanto longo, pois aqui descreverei detalhadamente o novo orfanato onde eu e minha irmã estamos trabalhando há 03 semanas. Aproveito para divulgar o orfanato, que também funciona como escola, para dessa forma, tentar conseguir qualquer tipo de ajuda. Lá eles precisam literalmente de TUDO! Seja material escolar, livros, lousas, mesas e cadeiras, roupas, brinquedos, mas sobretudo, comida. Afinal, ninguém consegue se concentrar estando com fome!
Nosso primeiro orfanato – Overcomers Centre for Orphans, era bem localizado, portanto, as pessoas visitavam o local para fazer doações. E por ser dirigido por um pastor, também recebem ajuda de igrejas.
Já o Light Orphanage Centre fica no meio de uma das favelas mais pobres que já visitei no Quênia, chamada Kware (lê-se “quaré”). O acesso é difícil, há muito lixo nas ruas de terra, o local cheira mal e não há saneamento básico. Além disso, há um acúmulo populacional neste bairro e para piorar, há também muitos bêbados nas ruas.
Entrada do orfanato
O orfanato foi fundado em 2008 por Charles Mutuma, de 33 anos, mas com aparência de 40, devido às dificuldades do dia-a-dia. Ele também é orfão e por isso decidiu ajudar crianças e adolescentes. Ele nunca teve uma casa para morar, sendo assim, vive no orfanato com sua esposa e sua filha de 09 meses de idade.
Charles Mutuma, fundador do Light Orphanage Centre
O orfanato atende aproximadamente 80 crianças, sendo que apenas 32 moram no local. São 13 meninos dividindo 01 quarto com 03 camas, e 19 meninas, dividindo 02 quartos com 03 camas cada. Ou seja, alguns deles precisam dormir juntos. 
Quarto dos meninos
Os quartos não têm janelas e o chão é de terra, assim como as salas de aula. Algumas crianças são muito pequenas e ainda fazem xixi na cama, tornando o cheiro simplesmente insuportável. Por isso também, os colchões estão podres e infestados de “bed bugs”.

Não sei a tradução exata desses insetos para o português, mas achei no Google como percevejo e até mesmo chato. De qualquer forma, são insetos minúsculos, que se alimentam de sangue e causam coceira. Gostam de lugares escuros, úmidos e sem higiene. É muito difícil tratar um local já infestado. No entanto, eu e minha irmã compraremos  inseticidas para tentar eliminá-los.

Quarto das meninas
Além disso, não têm eletricidade, ou seja, tomam banho de bacia e ainda por cima, frio. Também não têm nenhum tipo de entretenimento, como TV ou rádio. Bem como não têm brinquedos. Dentro do orfanato há apenas um escorregador e dois balanços quebrados. As crianças e adolescentes brincam com pneus.

Não há cestos, portanto, jogam todo o lixo atrás de uma das salas de aula, o que atrai muitos insetos, moscas, mas sobretudo, doenças. Graças a Deus, nunca vi ratos e baratas. Às vezes, queimam o lixo, o que me causa muita dor de cabeça, pois é extremamente tóxico, uma vez que estão queimando sacolas e garrafas plásticas.
Os banheiros são deploráveis. Não há privadas, são apenas buracos no chão, fedem e são cheios de moscas. Acho que no Brasil chamamos de latrina. Trabalho no orfanato das 08 às 15h00 e mal tenho tomado água para evitar ir ao banheiro. Em virtude disso, tenho me sentido fraca, desidratada e minha cabeça está sempre latejando. Em 02 semanas usei o banheiro por 02 vezes, por extrema necessidade.
Banheiros
As salas de aula não têm mesas e cadeiras apropriadas e alguns não têm onde sentar. As lousas são de madeira, dificultando a escrita e a leitura. Constantemente falta giz e apagador. Temos que apagar as lições com um pedaço de espuma. As crianças mal têm papel e lápis para escrever. Eu e minha irmã compramos 01 lápis, 01 caneta e 01 apontador para cada. Nunca vi crianças tão felizes por ganharem esse tipo de presente.
Sala de aula
Neste orfanato não há estrutura nenhuma, portanto, tenho que ser muito criativa para dar as aulas. Tenho ensinado Inglês, Estudos Sociais, Religião e Educação Física para 4ª a 7ª séries. Há apenas 01 livro de cada matéria, para cada professor. Os alunos não têm livros. Quando não há giz, eles precisam se “empoleirar” para copiar as questões do meu livro.

Algumas crianças e até mesmo alguns adolescentes são incrivelmente inteligentes. Porém, há aqueles que mal sabem ler e escrever e estão na 4ª série em diante. Infelizmente, não estão conseguindo acompanhar as aulas. Nem sei como ajudá-los, pois tenho me desdobrado correndo de uma sala para outra.
Falando em ensinar, há apenas 01 professor, de aproximadamente 70 anos de idade, dando aula para 04 salas de uma só vez. Ele vai passando de sala em sala, deixando tarefas nas lousas. Nos intervalos, ele dorme na suposta sala da diretoria. Ele está recebendo metade do salário e só consegue se manter porque também recebe aposentadoria. Creio que só esteja aguentando firme, porque sabe que as crianças precisam dele.
Professores Jennifer, Gladys, Margaret e Eleisha
Há mais 03 professoras, no entanto, elas dão aula apenas para uma sala, de 1ª a 3ª série. Também estão recebendo somente metade do salário, que aliás, nem é pago pelo governo e sim por um único doador da Suécia, que faz depósitos mensalmente na conta do orfanato, no valor de U$ 200,00. Este valor equivale a aproximadamente KSH 15,000.00 shillings, sendo que KSH 10,000.00 vai para o aluguel do orfanato e o restante, para comprar comida, água, remédios e material escolar. Infelizmente os professores não duram muito tempo, pois precisam sustentar suas famílias e acabam procurando outro emprego.
Além do Charles e dos professores, há uma cozinheira/faxineira, que também mora no orfanato com suas 02 filhas. Diariamente as crianças comem apenas o tradicional ugali, uma comida muito parecida com nossa polenta, mas de cor branca, uma vez que o milho aqui é branco, acompanhado de sukuma (couve). Não há outros legumes, nem vegetais, muito menos carnes ou frutas. E se vocês ampliarem a foto abaixo, perceberão que eles estão comendo com as mãos.

Refeitório
Uma vez por semana, uma moradora da região doa ossos de cabra, os quais a cozinheira reaproveita para fazer uma sopa bem rala e aguada. Claro que não há fogão. Há 02 buracos improvisados no chão, onde ela cozinha com carvão.

Charles, o fundador, vive estressado, tentando arranjar dinheiro para manter o orfanato. Diariamente tem que correr atrás de comida. Algumas vezes, recebe doações dos moradores da região. E ainda assim, está sempre com um sorriso no rosto.
Eu e minha irmã somos as primeiras voluntárias do orfanato/escola. Infelizmente, não são muitas as pessoas que se “doariam” para trabalhar no meio de uma favela, cheia de pobreza, lixo, mal cheiro, moscas, córregos imundos e bêbados, se arriscando a serem assaltadas ou até mesmo a pegar uma doença.
Além de darmos aula, eu e minha irmã também estamos fotografando todas as crianças e criando arquivos para cada uma delas. Além disso, criamos um blog e começamos a promovê-lo recentemente para tentar obter qualquer tipo de ajuda. O blog está em inglês, porém tudo que escrevi acima, é o que consta no blog.

http://www.lightorphanagecentre.blogspot.com/

Caso alguém queira ajudar, podem entrar em contato diretamente comigo através dos comentários ou até mesmo efetuar um depósito na conta do próprio orfanato. Dou minha palavra de que se trata de um orfanato que realmente precisa de ajuda e seu fundador é extremamente honesto.

Banco: Equity Bank Limited
Address: NHIF Bulding, Floor 14, 1st, Ngong
Country postal / Code city: 00200 Nairobi, Kenya
Name: Light Orphanage Centre
Número da conta: 0610 296 227 569
BIC / Swift Code: EQBLKENA

Mesmo de longe, você também pode fazer a sua parte! ;-)